quinta-feira, 29 de julho de 2010
Tradição oral e história oral: revendo algumas questões.
Começamos pela importância da tradição oral indígena para documentar tempos históricos onde não existem documentos escritos, pelo menos da parte dos indígenas.
Cada vez mais tem sido exigido pelos povos indígenas ser reavaliados a história das relações entre nativos e brancos, pois na sua visão está incorreto suas imagens e suas representações serem guiados pelo outro lado.
Os povos indígenas acreditam que a repetição oral de suas histórias será mais bem entendida, diferente do meio acadêmico que escrutinam suas fontes. O desafio está em conciliar os dois lados.
Abordagens históricas à análise da tradição oral.
Tradição oral – Bens materiais que ficaram do passado, ou outro vezes, o nome do processo pelo qual a informação é levada de geração a geração.
História oral – Método de pesquisa baseado em entrevistas de uma testemunha ocular do fato histórico.
Algumas abordagens:
1) No século XIX, os folcloristas europeus consideravam os relatos orais como coisas isoladas para colecionar.
2) Nessa formula surge com grupos de interesse que se apropriam de tradições indígenas, dizendo encontrar nelas espiritualidade ou conhecimento natural da ecologia.
Nas duas abordagens espera-se que problemas do estado moderno recebem respostas convenientes para os estados modernos vindo dos indígenas.
Apesar de alguns acadêmicos do século XIX se preocupar com o contexto social em que a tradição oral ocorre, contudo, interessavam pelo discurso do presente mais do que passado.
Em meados do século XX, os estruturalistas influenciados por Claude Lévi-Strauss que a tradição oral é expressões da mente humana, nada tem a ver com presente ou passado. São simbolicamente narrativas que atuam para tentar resolverem questões do
comportamento social que não podem ser resolvidas por causa de sua complexidade, isto é, não tem nada de real, pois a realidade está em nível mais profundo.
Outra estrutura deste século XX vincula a tradição oral aos movimentos políticos que usaram como interesse para acender o nacionalismo. Buscando reconstituir herança cultural perdida para unir a população por causa de suas origens. É usada como exemplo a Alemanha que esse nacionalismo floresceu unindo estados dispersos, e a China que no momento oportuno legitimou rebeliões contra o Império e depois foi sufocada pelo novo estado que fora criado.
Abordagens atuais á análise da tradição oral.
Atualmente a tradição oral é estudada sua formação como seu posicionamento, e pode ser vista como transmissões de conhecimentos. Não se pode comparar com a pesquisa acadêmica, pois diante de uma evidencia legitima pode possuir significados diferentes.
A história oral sobre o passado que já foi considerada limitada pelo seu caráter subjetivo, hoje se tornou uma virtude para entender os processos históricos através da vida de uma pessoa.
Neste entendimento temos duas abordagens:
1) Um focaliza a história social, a vida cotidiana e as contradições das relações de poder.
2) A outra se preocupa com a formação das narrativas e os seus meios usados para firmar seu discurso.
Vamos para alguns exemplos de observações em quatro contextos culturais:
1) Renato Rosaldo começou seu trabalho na Filipinas nos anos 70, pensando reconstruir a história desse povo usando fontes orais. Mas uma de suas contribuições foi demonstrar que pode ser prejudicada nossa capacidade de escutar o que está sendo dito. Segundo ele é um erro equiparar os depoimentos orais com documentos escritos, pois os depoimentos orais devem ser ouvidos no seu contexto. A advertência de Rosaldo é para que se estude o texto e não olhe através dele, em torno dele ou por trás dele.
2) Na Nova Zelândia, a historiadora Judith Binney resolveu comparar história dos maoris com os textos escritos dos pakehas, e sua maior conclusão que não há como acabar com as contradições entre história oral e escrita.
3) Trabalhando na África Oriental, David Cohen, verificou que deve haver um cuidado para não afirmar uma história oral, porque é inevitável o privilégio de classes ou clãs mais fortes, ou cujas tradições se assemelham mais as nossas. Fala também da memória que para alguns é mais escassa.
4) No fim dos anos 80 os chefes de algumas tribos decidiram defender seus direitos de terras na Suprema Corte de um mundo codificado com suas tradições orais. O juiz canadense negou valor da história oral como evidencia e se prendeu ao que havia de escrito para sua sentença.
O ponto em comum dos quatro exemplos é que em lugares diferentes a história oral tem peso diferente para suas sociedades.
Também devemos ser criteriosos sobre as tentativas de codificar essa história oral.
Instrução etnográfica: para onde nos conduz?
A tradição oral complica nossas perguntas quando olhamos para o discurso acadêmico, como ocidentais ficam perdidos diante de diferentes de tipos de evidencias para recriarmos o passado.
Quanto às questões indígenas ficarão as perguntas de quem faz a história legitima? Quem identifica os eventos que são importantes historicamente?
Há duas correntes que estudam a reconstrução da história indígena:
1) O estudo de sociedades autônomas de pequena escala é um erro porque está contraria ao sistema mundial em quais todas as economias estão inseridas.
2) A postura cultural construcionista oposta sugere que a cultura está sempre em processo por decorrência das condições externas.
A conclusão vem do antropólogo Richard Lee que fala que um faz isso negando a existência das sociedades autônomas de pequena escala e o outro diz que suas histórias foram inventadas.
Resenha de Henrique Rodrigues Soares - Sobre parte do livro Uso e Abuso da História Oral de Janaina Amado
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Sobre os Annales
Os Annales construíram uma nova história abordando novos grupos sociais, novas perspectivas que eram negligenciadas por antigos historiadores. Com novos métodos, novas fontes e a colaboração de outras ciências, numa construção interdisciplinar.
Começamos na 1° geração onde mudamos de uma história narrativa de acontecimentos para uma história problema, onde nos preocupamos com a geografia, a psicologia e o econômico.
“Outra característica marcante e poderosa do estudo de Febvre era a introdução geográfica, que traçava um nítido perfil dos contornos da região. (...)
O interesse de Febvre pela geografia histórica era suficientemente grande para publicar, sob o incentivo de Henri Berr, um estudo geral sobre o assunto com o titulo de L aterre et l’évolution humaine.”
Marcados pelas figuras de Marc Bloch e Lucien Febvre foi fundada a Revista dos Annales, num ambiente favorável na cidade de Estrasburgo, onde se encontrava um grupo interdisciplinar grande e atuante. Bloch era ligado mais a sociologia do que a geografia, porém insistia na necessidade do historiador dialogar com outras fontes como arqueologia, psicologia e assim por diante.
“(...) Bloch pensava no tema sob a perspectiva de uma história-problema. Num estudo de caráter regional, aprofundou-se tanto a ponto de pôr em questão a própria noção de região, argumentando que esta dependia do problema que se tinha em mente. “ Por que, escreveu ele, devemos esperar que o jurista interessado no feudalismo, o economista que está estudando a evolução da propriedade no interior do país nos tempos modernos, e o filólogo que trabalha os dialetos populares tenham todos que respeitar fronteiras precisamente idênticas?” (Bloch, 1913, p122.)”
Na 2º geração através da figura de Fernand Braudel torna-se verdadeiramente uma escola com estruturas e firmezas dos seus conceitos e métodos. São no seu trabalho como historiador que podemos ver a mudança de um conceito de narrativa de grandes homens para o entendimento do meio que vive, fica explicito no livro Mediterrâneo.
“ Não chegamos ainda ao coração do problema. Abaixo das correntes sociais jaz uma outra história, “uma história quase imóvel... uma história lenta a desenvolver-se e a transformar-se, feita muito frequentemente de retornos insistentes, de ciclos sem fim recomeçados” (Ibid., p.20). A verdadeira matéria do estudo é essa história “do homem em relação ao seu meio”, uma espécie de geografia histórica, ou, como Braudel preferia denominar, uma “geo-história”.”
A terceira geração é marcada pela fragmentação, onde encontra espaço para historiadores de outras nacionalidades que não a francesa, também a inclusão das mulheres. Um dos períodos mais difíceis de explicar sua formação, sua identidade, pois alguns dos Annales continuam explorando os mesmos caminhos da 1º e 2º geração, mas outros voltam à narrativa política e dos eventos.
A falta de uma figura principal como nas gerações anteriores, porém não ofuscam a redescoberta da história das mentalidades e a tentativa de empregar métodos quantitativos na história cultural.
“(...) Dois dos mais destacados historiadores recrutados para a história das mentalidades, no inicio dos anos 60, foram os medievalistas Jacques Le Goff e Georges Duby. Le Goff, por exemplo, publicou um famoso artigo em 1960 sobre “O tempo dos mercadores e o tempo da Igreja na Idade Média” (Le Goff, 1977, 29-42).”
Para concluirmos entendemos que a contribuição dos Annales está na abertura para uma nova discussão, e para novas perguntas que cada dia a sociedade formula.
Resenha sobre livro Escola dos Annales de Peter Burke.
Bibliografia e trechos retirados do livro descrito.
Henrique Rodrigues Soares
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Crise no Mundo Medieval
De meados do século XII a cerca de 1340, o desenvolvimento da cristandade latina atinge o seu apogeu. Nesse apogeu a França ocupa o primeiro lugar e o grande movimento de urbanização está no auge. As cidades são uma das principais manifestações e um dos motores essenciais dessa culminação medieval. A atividade econômica, cujo centro são as cidades, chega ao seu mais alto nível. Sob a égide de uma Igreja que se adapta à evolução e triunfa sobre a ameaça herética, particularmente viva em certos meios urbanos, uma nova sociedade, marcada pelo cunho urbano, manifesta-se num relativo equilíbrio entre nobreza, que participa do movimento urbano mais do que se tem afirmado, burguesia que dá o tono, se não o tom, à sociedade, e classes trabalhadoras, das quais uma parte — urbana — fornece a massa de mão-de-obra às cidades, e a outra — rural — alimenta a cidade e é penetrada por seu dinamismo. A cultura, a arte e a religião têm uma fisionomia eminentemente urbana. Mas a cidade tende também a se instalar, se não a estacionar. Ela cristaliza seu corpo físico nos lugares em que se fixou, quase sempre no interior das muralhas onde se encerra, institucionaliza seu impulso político numa comunidade vitoriosa mas estabilizada, sua atividade produtora se organiza segundo uma tendência corporativa, sua efervescência escolar e intelectual se acomoda nas universidades. Ela estabelece sua imagem e constrói seu imaginário e sua ideologia. Mas acima dela o poder monárquico insere-a numa construção que a ultrapassa e a submete. Passa-se da cidade selvagem e conquistadora à "boa" cidade. Jerusalém, a cidade da esperança, não triunfou sobre Babilônia, a cidade da desordem. Em breve, a partir de 1260, com velocidade maior ou menor, conforme as regiões, desequilíbrios estruturais da economia e da sociedade, marcados por uma longa crise conjuntural que se aprofunda e se manifesta a princípio nas cidades, conduzem a uma crise de múltiplos aspectos. A ativação dos distúrbios sociais evoca uma realidade de desigualdades e lutas que uma harmonia de fachada mascarara durante algum tempo, as crises monetárias mostram a fragilidade de uma economia baseada no dinheiro com a qual as cidades quase se haviam identificado, a multiplicação das reclusões e das exclusões revela o aumento do número de marginais de todos os tipos, a teologia, a literatura e a arte deixam transparecer a inquietude que se exprime principalmente nas cidades. No Concilio de Vienne-sur-le-Rhône, em 1311, os contestatários franciscanos fazem a acusação da cidade.
Extraído do Livro 'O Apogeu da Cidade Medieval' de Jacques Le Goff
domingo, 10 de janeiro de 2010
Prêmio Selo Blogs da Semana por História Viva
Para começarmos o Ano 2010 fomos agraciados com o Selo Blogs da Semana, prêmio conferido pelo Blog História Viva.
Todos agradecimentos aos nossos amigos que nos visitaram e os que nos seguem trazendo responsabilidade a escolha de nosso conteúdo.
Nesta semana nosso Blog O Historiador começa a fazer sua História.
Obrigado ao Eduardo Marculino pela agradável surpresa.
domingo, 3 de janeiro de 2010
O Historiador e as Fontes Históricas
O Historiador e as Fontes Históricas
Resumo: A presente reflexão visa demonstrar como e grande e diversa as fontes históricas que o historiador dispõe para reconstruir a trama histórica dos indivíduos sociais no tempo e espaço.
O Historiador e o dialogo com o passado
Alguém pode perguntar: como historiador estabelece o contato, dialogo com o passado? Como chegar ate lá, se ele não existe mais? Como o conhecimento do passado e possível?
Tendo em vista que todo conhecimento do passado é "indireto" e, logo, o historiador, por definição, está na impossibilidade de ele próprio constatar os fatos que estuda [2]". Assim, como afirma François Simiand, o conhecimento histórico é "um conhecimento através de vestígios [3]" de marcas perceptíveis aos sentidos deixadas "por um fenômeno em si mesmo impossível de captar" [4]
Diante disso, resta ao historiador à tarefa de tentar reconstituir possíveis existências para as pessoas do passado e os contextos em que estavam mergulhadas, em que elas atuaram produzindo suas formas de vivência que relegaram ao presente.
Assim, temos que pesquisar a os seres humanos tanto do ponto de vista de seu tempo-espaço como os processos que produzem os fatos dentro de um determinado período de tempo. Dessa forma, podemos dizer que a História relaciona-se com o Tempo [5]. E, mais especificamente, ela relaciona-se com o passado visto a partir do presente. Ou, ainda, é o presente, procurando dar um sentido e uma explicação para o passado.
A "pegada humana" ao longo dos tempos, dentro do processo histórico, é, ao mesmo tempo, processo de produção da cultura e uma necessidade de cristalização que se realiza pelo registro. Essa cristalização se dá mediante as fontes [6], os vestígios e as marcas que compõem o patrimônio histórico e é o resultado da ação concreta dos seres humana em um determinado tempo e espaço. Portanto, em sua temporalidade os seres humanos produzem suas marcas culturais e patrimoniais voluntariamente e involuntariamente (traços deixados pelos homens sem a mínima intenção de legar um testemunho à posteridade). Essas pegadas - marcas servem não só para registrar a atuação humana, mas como também para cristalizar o a sua ação, os fatos ou os processos que produziram esses acontecimentos. Neste sentido, Marc Bloch revela que "é quase infinita a diversidade dos testemunhos históricos. Tudo quanto o homem diz ou escreve, tudo quanto fabrica, tudo em que toca, pode e deve informar a seu respeito." [7]. Portanto, Bloch nos diz que e grande a diversidade de fontes históricas de que o historiador pode trabalhar na reconstrução das sociedades passadas. Portanto, tudo que o homem produziu e deixou na história e o objeto do historiador.
Neste ponto de vista, podemos dizer que pesquisar a história é buscar a compreensão dos processos que produziram os fatos que marcaram o tempo e espaço. Isso é possível por que todas as coisas têm história e podemos estudar a história de tudo. Tudo que acontece e que aconteceu é história. A história, portanto, trabalha com o passado, com aquilo que os seres humanos produziram no passado. Assim, o pesquisador, reconstrói a história, mas faz isso no seu presente, pois ele é um estudioso que está em uma sociedade diferente daquela que ele volta seus olhos para pesquisar e apreender suas especificidades. Ademais, tudo tem sua historicidade, e logo o homem sendo protagonista da história, atuando-produzindo e deixando "pegadas", ou utilizando outro termo, suas marcas ao longo de sua trajetória, ai está a gama de fontes que dispusemos para escrever a respeito.
Referencias Bibliográficas
BLOCH, Marc. Introdução à História. Publicações Europa-América, (s/d).
------------------. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.
________________________________________
[1] Esta breve reflexão faz parte de um trabalho mais extenso que venho desenvolvendo intitulado: Metodologia com Fontes Periódicas na Pesquisa Histórica
[2] BLOCH, 2002, p. 69.
[3] Ibidem, p. 73.
[4] Ibidem
[5] Ao determos que a História é o estudo do homem no tempo, rompe-se com a idéia de que a História deve examinar apenas e necessariamente as ações do homem já transcorridas: o passado. O que ela estuda na verdade são as ações e transformações humanas (ou permanências) que se desenvolvem ou se estabelecem em um determinado período de tempo, mais longo ou mais curto. Assim, desta maneira, a História é o estudo do Homem no Tempo e no Espaço.
[6] Existem documentos que são dominados fontes primarias e outros, fontes secúndarias. As fontes primárias são testemunhas do passado que se caracteriza por ser contemporânea dos fatos históricos a que se referem. Grosso modo estabelecemos aqui, a tipologia de fontes primarias que são as "pegadas" deixadas na história pela ação dos homens, que o historiador utiliza para reconstruir o passado o mais próximo possível do que aconteceu: fontes escritas: documentos jurídicos (constituições, leis, decretos), sentenças, testamentos, inventários, discursos escritos, cartas, livros de contabilidade, livros de história, autobiografia, diários biográficos, crônicas, poemas, novelas, romances, lendas, mitos, textos de imprensa (jornais e revistas), censos, estatísticas, mapas, gráficos e registros paroquiais ect. Fontes orais: entrevistas, gravações (de entrevistas, por exemplo), lendas contadas ou registradas de relato de viva voz, programas de radio e fitas cassete etc. Fontes materiais: utensílios, mobiliários, roupas, ornamentos (pessoais e coletivos), armas, símbolos, instrumentos de trabalho, construções (templo, casas, sepulturas), esculturas, moedas, restos (de pessoas ou animais mortos), ruínas e nomes de lugar (toponímia) e outras mais. Fontes visuais: pinturas, caricaturas, fotografias, gravuras, filmes, vídeos e programas de televisão, entre outros. No que tange as fontes secundárias, estas são registros que contêm informações sobre os conteúdos históricos resultantes de uma ou mais elaborações realizadas por diferentes pesquisadores. Essas fontes nos chegam por pesquisadores que realizam reconstruções do passado, cujas referencias são de diferentes fontes primarias. Ou seja, são as diversas interpretações que os pesquisadores realizam das fontes primarias. E, o caso dos trabalhos acadêmicos. (Teses, Dissertações).
[7] BLOCH, (s/d).
Fonte: Webartigos.com | Textos e artigos gratuitos, conteúdo livre para reprodução. 1
RENATO CARVALHO
Graduando em História pela Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí - PR. Desenvolve pesquisa sobre metodologia com Fontes Periódicas na Pesquisa Histórica.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Feliz Ano Novo!
Mais um ano no calendário ocidental está terminando, mas um ano gregoriano fica no passado virando História, deixando histórias e semeando histórias que vão crescer, florescer e nascer pelo ano que está chegando.
Imagens que não esqueceremos, fatos, heróis e vilões que farão parte da memória.
Assim são todos os fins de anos, e o que fica é o desejo de começar de novo, a esperança de novos sonhos e conquistas, por isso a história nunca acaba.
Feliz 2010! Para todos que fazemos história todos os dias.
Henrique Rodrigues Soares
Imagens que não esqueceremos, fatos, heróis e vilões que farão parte da memória.
Assim são todos os fins de anos, e o que fica é o desejo de começar de novo, a esperança de novos sonhos e conquistas, por isso a história nunca acaba.
Feliz 2010! Para todos que fazemos história todos os dias.
Henrique Rodrigues Soares
domingo, 6 de dezembro de 2009
História
Discussões e entendimentos
Dinastias e invasões
Conquistas e falecimentos
Heróis e convicções
Eras e cronologias
Quimeras e luta po poder
Traições e picardias
Honrarias ao que morrer
As datas, os marcos
O que me diz a memória
Sobre os fortes e os fracos
A leitura da História.
Henrique Rodrigues Soares O que é a Verdade?
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
A Obra
As cidades de Tristes trópicos
RESUMO: Este artigo repassa, em Tristes trópicos, as observações de Lévi-Strauss sobre o tema da cidade, desde as primeiras impressões quando de sua chegada ao Brasil, passando pela "etnografia dos domingos" na capital paulistana, o surgimento das novas cidades no norte do Paraná, até, finalmente, as multidões em espaços urbanos da Índia, pólo que o leva a estabelecer comparações com as formas características do processo de urbanização no Novo Mundo. Tomando sua leitura como um exercício de análise, o artigo conclui refletindo sobre a oportunidade de contar com categorias que permitam captar, a partir da antropologia, a dinâmica urbana contemporânea.
Quando se entra em contato com a obra de Lévi-Strauss através de Tristes trópicos, ainda têm uma especial sonoridade para ouvidos nativos as referências feitas a espaços como a rua Florêncio de Abreu, o bairro de Perdizes e o Pacaembu, a avenida São João, o Vale do Anhangabaú, a avenida Paulista e muitos outros, tão familiares e conhecidos dos moradores da cidade de São Paulo. Tais referências, mas principalmente as observações sobre a presença de migrantes estrangeiros nos arredores da cidade, a dinâmica de mercados populares com seu artesanato e algumas festas tradicionais fazem parte do que o próprio Lévi-Strauss então chamou de "etnografia dos domingos". Conforme depoimento prestado anos mais tarde a Didier Eribon, lembra que suas expedições às tribos indígenas tiveram início
"a partir do primeiro ano letivo. Em vez de voltar para a França, minha mulher e eu fomos para o Mato Grosso, para as aldeias cadiveu e bororo. Mas eu já tinha começado a fazer etnologia com os meus alunos: sobre a cidade de São Paulo e sobre o folclore dos arredores, do qual minha mulher se ocupava mais especificamente". (Lévi-Strauss & Eribon, 1990: 32)
No entanto, logo após aquelas observações iniciais sobre a cidade, sua dinâmica e tipos característicos, entremeadas por outras tantas frases de efeito nem sempre lisonjeiras, mas continuamente lembradas – do tipo "as cidades do Novo Mundo passam diretamente à decrepitude sem se deterem no antigo" –, o livro logo encontra e assume seu verdadeiro filão, proporcionado pelo primeiro contato do jovem pesquisador com as sociedades indígenas. No meio do caminho, entretanto, Lévi-Strauss deu uma parada para contemplar os efeitos da urbanização no interior paulista, esboçar algumas regras subjacentes ao processo de implantação de novas cidades no norte do Paraná e finalmente, já do outro lado do mundo, estabelecer comparações com cidades, mercados, tipos humanos e multidões da Índia e Paquistão.
Ainda que tais notas não tenham vindo a fundar uma linha de reflexão mais sistemática sobre o tema, diferentemente do que ocorreu com seus insights a respeito dos Cadiveo, Bororo e Nhambiquara, merecem destaque pela agudeza das percepções, pela trama dos contrapontos, pelo alcance do olhar; trata-se de fino exercício que, fossem outras as circunstâncias, talvez tivesse dado início a alguma fecunda linhagem de estudos urbanos. Mas, como afirmou ao jornalista Ulderico Munzi, do Corriere della Sera, em 1993, " eu fiz uma escolha, a de interessar-me por coisas longínquas, no espaço e no tempo".
I
O exercício começa com uma rápida análise do processo de expansão da fronteira no interior do Estado de São Paulo, seguindo a trilha das transformações econômicas e formas de ocupação: o olhar atento identifica as alterações na toponímia, as mudanças na importância e função de povoados (pousos, boca do sertão) e de tipos de articulação viária – os portos de lenha, registros, estradas francas, estradas muladas e boiadas.
Mas é o espetáculo do surgimento de novas cidades, a partir do nada, no coração da floresta, o que mais o impressiona. Aquele tom blasé das primeiras observações, certamente tributário de um olhar ainda acostumado à vetustez de conjuntos arquitetônicos de dez séculos, e que por isso vê as cidades do Novo Mundo com cara de acampamento ou montagem provisória, cede lugar à busca de princípios explicativos para um fenômeno mais radical, flagrado em seu nascedouro.
No norte do Paraná o processo de colonização, à época da estada de Lévi-Strauss, estava multiplicando cidades ao longo de um tronco central rodo-ferroviário: a partir de clareiras rasgadas em meio à selva exuberante, já haviam surgido Londrina, depois Rolândia, Arapongas e outras mais. No início eram apenas umas poucas casas de madeira, algumas de troncos falquejados, seguindo técnicas construtivas dos imigrantes – principalmente da Europa Central – embasbacados com a fertilidade da terra roxa que as derrubadas iam pondo à mostra e à sua disposição. Mas não era uma ocupação desordenada: desde o primeiro momento pautava-se por alguns princípios simples, geométricos, aparentemente neutros.
Misteriosos elementos, diz Lévi-Strauss, responsáveis por esses quadriláteros onde as ruas são todas iguais, em ângulo reto; no entanto, algumas eram centrais, outras periféricas, estas perpendiculares à linha ferroviária ou à estrada, aquelas, paralelas. Por sobre a grade das combinações possíveis, distribuíam-se as conhecidas funções urbanas do comércio, dos negócios, da moradia e dos serviços públicos: umas situavam-se preferencialmente no sentido do tráfego enquanto outras procuravam as transversais. Um segundo princípio marca as linhas da ordem e da desordem e rege a distribuição da abundância e da carência: é o que se segue à direção leste/oeste. "Há muito deixamos de adorar o sol", afirma ele, "mas a persistência dessa orientação reveste-se de atualidade". Se não explica a variabilidade dos comportamentos individuais, termina produzindo, por decantação, uma unidade maior:
"a vida urbana apresenta um estranho contraste. Embora represente a forma mais completa e requintada da civilização, em virtude da concentração humana excepcional que realiza em espaço reduzido e da duração de seu ciclo, precipita no seu cadinho atitudes inconscientes, cada uma delas infinitesimal mas que, devido ao número de indivíduos que as manifestam do mesmo modo e em grau idêntico, se tornam capazes de engendrar grandes efeitos. Como exemplos, o crescimento das cidades de leste para oeste e a polarização do luxo e da miséria segundo este eixo, que se torna incompreensível se não reconhecermos esse privilégio – ou essa servidão – das cidades que consiste, à maneira dum microscópio e, graças ao aumento que lhe é peculiar, em fazer surgir na lâmina da consciência coletiva o borbulhar microbiano das nossas ancestrais mas sempre vivas superstições. Tratar-se-á, de resto, realmente, de superstições? (Lévi-Strauss, 1981: 116)
Eis aí, em concisa enunciação, uma verdadeira fórmula de cidade. Antecipando argumentos de "O Pensamento Selvagem", Lévi-Strauss sustenta que o espaço possui seus próprios valores, assim como os sons e os perfumes têm cores e os sentimentos um peso:
"Esta procura de correspondência não é um jogo de poeta nem mistificação, mas (... ) oferece para o cientista o terreno mais novo e aquele cuja exploração lhe pode ainda trazer ricas descobertas. (...) os mitos e os símbolos do selvagem devem surgir aos nossos olhos, senão como uma forma superior de conhecimento, pelo menos como a mais fundamental, a única verdadeiramente comum, constituindo o pensamento científico simplesmente a ponta mais acerada da mesma: mais penetrante, sem dúvida, porque aguçada como se fosse amolada na pedra dos fatos mas à custa duma perda de substância, dependendo a sua eficácia do poder de penetrar suficientemente fundo para que o corpo da ferramenta siga complemente a ponta". (Lévi-Strauss, 1981: 116-17)
A forma da aldeia bororo e sua íntima relação com a organização social (que seriam mostradas páginas adiante); a mandala que prefigura em desenho o traçado da cidade e determina sua implantação concreta; o gesto do centurião romano com sua groma, traçando no solo os cardines e decumani que fundam mais uma urbs¸ após a devida consulta aos augures; e finalmente o projetista inclinado sobre sua prancheta são algumas imagens que até podem ser dispostas numa linha diacrônica mas que pertencem a um mesmo conjunto paradigmático.
"Não é portanto apenas de maneira metafórica que é possível comparar -- como se fez muitas vezes -- uma cidade a uma sinfonia ou a um poema; são objetos de natureza idêntica. A cidade, talvez mais preciosa ainda, situa-se na confluência da natureza e do artifício. Congregação de animais que encerram a sua história biológica nos seus limites, modelando-a ao mesmo tempo com todas as suas intenções de seres pensantes, a cidade provém simultaneamente da procriação biológica, da evolução orgânica e da criação estética. É ao mesmo tempo objeto de natureza e sujeito de cultura; indivíduo e grupo; vivida e sonhada; a coisa humana por excelência". (Lévi-Strauss, 1981: 117)
A visita a Goiânia em 1937 e as impressões do empreendimento, em especial da única edificação que então sobressaía na planície, o grande e desgracioso hotel, fornecem-lhe o gancho para a segunda parte do exercício. A bordo de um tapete voador, termo que emprega como intertítulo em Tristes trópicos, Lévi-Strauss deixa o planalto central brasileiro em direção à Índia e ao Paquistão. A comparação agora será numa perspectiva macro, entre unidades maiores, afastadas no tempo e no espaço. A visão das ruínas das antigas cidades de Mohenjo-Daro e Harappa, revelando o plano urbanístico em retícula, evoca similares modernos:
"Apraz-nos imaginar que no termo de 4 a 5 mil anos de história, um ciclo foi concluído; que a civilização urbana, industrial, burguesa, inaugurada pelas cidades dos Indus, não diferia muito, na sua inspiração mais profunda, dessa que estava destinada, após uma longa involução na crisálida européia, a atingir a plenitude do outro lado do Atlântico. Quando ainda era jovem, o mundo mais Antigo esboçava já o rosto do Novo". (Lévi-Strauss, 1981: 124)
Mas é o impacto das multidões que lhe oferece o contraste mais marcante e novas pistas para comparação: nas ruas apinhadas de Calcutá o séquito de serviçais e suas ofertas, a procissão de pedintes e suas súplicas sustentam o ininterrupto e deprimente espetáculo de uma sub–humanidade. A cidade, qualificada poucas linhas acima como "forma mais completa e requintada da civilização", aqui emerge manchada pela imundície e degradação, produzindo no antropólogo não mais o estranhamento esperado e metodologicamente controlado, mas o espanto e até o constrangimento.
"O europeu que vive na América tropical tem problemas. Observa as relações originais existentes entre o homem e o meio geográfico; e as próprias formas de vida humana oferecem-lhe, sem cessar, temas de reflexão. Mas as relações entre as pessoas não revestem formas novas; são da mesma natureza daquelas que sempre o rodearam. Pelo contrário, na Ásia meridional, parece-lhe estar além ou aquém daquilo que o homem tem direito de exigir do mundo ou do homem. A vida cotidiana parece ser um permanente repúdio da noção de relações humanas (:128)."
É desse afastamento mais extremo, contudo, que vai emergir um novo significado e é aí que vai descobrir uma inusitada manifestação de humanidade. A imagem do artesão, entretido com umas poucas ferramentas e escasso material, a exercer na própria rua o ofício de onde retira a parca subsistência para si e para os seus, fá-lo exclamar: "E, todavia, são precisas tão poucas coisas, aqui, para criar a humanidade! Pouco espaço, pouca comida, poucos utensílios, pouca alegria".
Paradoxalmente, parece haver muita alma... Alma que uma parte do Ocidente cansada do consumo e saturada pela abundância vem procurar nas palavras e exemplos de esquálidos bikhus, gurus semi despidos e toda espécie de renunciadores, na recente onda de retorno a formas de espiritualidade há muito esquecidas neste outro lado do mundo.
O exercício finalmente chega a seu termo. Lévi-Strauss considera que o problema levantado pela confrontação entre a Ásia e a América tropicais continua sendo o da multiplicação humana num espaço limitado. Diante da situação de sociedades que se tornam demasiado numerosas, alerta para um tipo de perigo: a sedução de uma saída simplista, aquela que consiste em recusar qualidade humana a uma parte da espécie.
"Aquilo que me assusta na Ásia é a imagem do nosso futuro, do qual ela constitui uma antecipação", conclui, numa sombria antevisão. Sua última imagem, contudo, é da América indígena e seu fugidio reflexo "de uma era em que a espécie se encontrava à medida do seu universo e em que se verificava permanentemente uma relação adequada entre o exercício da liberdade e os sinais desta" (Lévi-Strauss, 1981: 143).
RESUMO: Este artigo repassa, em Tristes trópicos, as observações de Lévi-Strauss sobre o tema da cidade, desde as primeiras impressões quando de sua chegada ao Brasil, passando pela "etnografia dos domingos" na capital paulistana, o surgimento das novas cidades no norte do Paraná, até, finalmente, as multidões em espaços urbanos da Índia, pólo que o leva a estabelecer comparações com as formas características do processo de urbanização no Novo Mundo. Tomando sua leitura como um exercício de análise, o artigo conclui refletindo sobre a oportunidade de contar com categorias que permitam captar, a partir da antropologia, a dinâmica urbana contemporânea.
Quando se entra em contato com a obra de Lévi-Strauss através de Tristes trópicos, ainda têm uma especial sonoridade para ouvidos nativos as referências feitas a espaços como a rua Florêncio de Abreu, o bairro de Perdizes e o Pacaembu, a avenida São João, o Vale do Anhangabaú, a avenida Paulista e muitos outros, tão familiares e conhecidos dos moradores da cidade de São Paulo. Tais referências, mas principalmente as observações sobre a presença de migrantes estrangeiros nos arredores da cidade, a dinâmica de mercados populares com seu artesanato e algumas festas tradicionais fazem parte do que o próprio Lévi-Strauss então chamou de "etnografia dos domingos". Conforme depoimento prestado anos mais tarde a Didier Eribon, lembra que suas expedições às tribos indígenas tiveram início
"a partir do primeiro ano letivo. Em vez de voltar para a França, minha mulher e eu fomos para o Mato Grosso, para as aldeias cadiveu e bororo. Mas eu já tinha começado a fazer etnologia com os meus alunos: sobre a cidade de São Paulo e sobre o folclore dos arredores, do qual minha mulher se ocupava mais especificamente". (Lévi-Strauss & Eribon, 1990: 32)
No entanto, logo após aquelas observações iniciais sobre a cidade, sua dinâmica e tipos característicos, entremeadas por outras tantas frases de efeito nem sempre lisonjeiras, mas continuamente lembradas – do tipo "as cidades do Novo Mundo passam diretamente à decrepitude sem se deterem no antigo" –, o livro logo encontra e assume seu verdadeiro filão, proporcionado pelo primeiro contato do jovem pesquisador com as sociedades indígenas. No meio do caminho, entretanto, Lévi-Strauss deu uma parada para contemplar os efeitos da urbanização no interior paulista, esboçar algumas regras subjacentes ao processo de implantação de novas cidades no norte do Paraná e finalmente, já do outro lado do mundo, estabelecer comparações com cidades, mercados, tipos humanos e multidões da Índia e Paquistão.
Ainda que tais notas não tenham vindo a fundar uma linha de reflexão mais sistemática sobre o tema, diferentemente do que ocorreu com seus insights a respeito dos Cadiveo, Bororo e Nhambiquara, merecem destaque pela agudeza das percepções, pela trama dos contrapontos, pelo alcance do olhar; trata-se de fino exercício que, fossem outras as circunstâncias, talvez tivesse dado início a alguma fecunda linhagem de estudos urbanos. Mas, como afirmou ao jornalista Ulderico Munzi, do Corriere della Sera, em 1993, " eu fiz uma escolha, a de interessar-me por coisas longínquas, no espaço e no tempo".
I
O exercício começa com uma rápida análise do processo de expansão da fronteira no interior do Estado de São Paulo, seguindo a trilha das transformações econômicas e formas de ocupação: o olhar atento identifica as alterações na toponímia, as mudanças na importância e função de povoados (pousos, boca do sertão) e de tipos de articulação viária – os portos de lenha, registros, estradas francas, estradas muladas e boiadas.
Mas é o espetáculo do surgimento de novas cidades, a partir do nada, no coração da floresta, o que mais o impressiona. Aquele tom blasé das primeiras observações, certamente tributário de um olhar ainda acostumado à vetustez de conjuntos arquitetônicos de dez séculos, e que por isso vê as cidades do Novo Mundo com cara de acampamento ou montagem provisória, cede lugar à busca de princípios explicativos para um fenômeno mais radical, flagrado em seu nascedouro.
No norte do Paraná o processo de colonização, à época da estada de Lévi-Strauss, estava multiplicando cidades ao longo de um tronco central rodo-ferroviário: a partir de clareiras rasgadas em meio à selva exuberante, já haviam surgido Londrina, depois Rolândia, Arapongas e outras mais. No início eram apenas umas poucas casas de madeira, algumas de troncos falquejados, seguindo técnicas construtivas dos imigrantes – principalmente da Europa Central – embasbacados com a fertilidade da terra roxa que as derrubadas iam pondo à mostra e à sua disposição. Mas não era uma ocupação desordenada: desde o primeiro momento pautava-se por alguns princípios simples, geométricos, aparentemente neutros.
Misteriosos elementos, diz Lévi-Strauss, responsáveis por esses quadriláteros onde as ruas são todas iguais, em ângulo reto; no entanto, algumas eram centrais, outras periféricas, estas perpendiculares à linha ferroviária ou à estrada, aquelas, paralelas. Por sobre a grade das combinações possíveis, distribuíam-se as conhecidas funções urbanas do comércio, dos negócios, da moradia e dos serviços públicos: umas situavam-se preferencialmente no sentido do tráfego enquanto outras procuravam as transversais. Um segundo princípio marca as linhas da ordem e da desordem e rege a distribuição da abundância e da carência: é o que se segue à direção leste/oeste. "Há muito deixamos de adorar o sol", afirma ele, "mas a persistência dessa orientação reveste-se de atualidade". Se não explica a variabilidade dos comportamentos individuais, termina produzindo, por decantação, uma unidade maior:
"a vida urbana apresenta um estranho contraste. Embora represente a forma mais completa e requintada da civilização, em virtude da concentração humana excepcional que realiza em espaço reduzido e da duração de seu ciclo, precipita no seu cadinho atitudes inconscientes, cada uma delas infinitesimal mas que, devido ao número de indivíduos que as manifestam do mesmo modo e em grau idêntico, se tornam capazes de engendrar grandes efeitos. Como exemplos, o crescimento das cidades de leste para oeste e a polarização do luxo e da miséria segundo este eixo, que se torna incompreensível se não reconhecermos esse privilégio – ou essa servidão – das cidades que consiste, à maneira dum microscópio e, graças ao aumento que lhe é peculiar, em fazer surgir na lâmina da consciência coletiva o borbulhar microbiano das nossas ancestrais mas sempre vivas superstições. Tratar-se-á, de resto, realmente, de superstições? (Lévi-Strauss, 1981: 116)
Eis aí, em concisa enunciação, uma verdadeira fórmula de cidade. Antecipando argumentos de "O Pensamento Selvagem", Lévi-Strauss sustenta que o espaço possui seus próprios valores, assim como os sons e os perfumes têm cores e os sentimentos um peso:
"Esta procura de correspondência não é um jogo de poeta nem mistificação, mas (... ) oferece para o cientista o terreno mais novo e aquele cuja exploração lhe pode ainda trazer ricas descobertas. (...) os mitos e os símbolos do selvagem devem surgir aos nossos olhos, senão como uma forma superior de conhecimento, pelo menos como a mais fundamental, a única verdadeiramente comum, constituindo o pensamento científico simplesmente a ponta mais acerada da mesma: mais penetrante, sem dúvida, porque aguçada como se fosse amolada na pedra dos fatos mas à custa duma perda de substância, dependendo a sua eficácia do poder de penetrar suficientemente fundo para que o corpo da ferramenta siga complemente a ponta". (Lévi-Strauss, 1981: 116-17)
A forma da aldeia bororo e sua íntima relação com a organização social (que seriam mostradas páginas adiante); a mandala que prefigura em desenho o traçado da cidade e determina sua implantação concreta; o gesto do centurião romano com sua groma, traçando no solo os cardines e decumani que fundam mais uma urbs¸ após a devida consulta aos augures; e finalmente o projetista inclinado sobre sua prancheta são algumas imagens que até podem ser dispostas numa linha diacrônica mas que pertencem a um mesmo conjunto paradigmático.
"Não é portanto apenas de maneira metafórica que é possível comparar -- como se fez muitas vezes -- uma cidade a uma sinfonia ou a um poema; são objetos de natureza idêntica. A cidade, talvez mais preciosa ainda, situa-se na confluência da natureza e do artifício. Congregação de animais que encerram a sua história biológica nos seus limites, modelando-a ao mesmo tempo com todas as suas intenções de seres pensantes, a cidade provém simultaneamente da procriação biológica, da evolução orgânica e da criação estética. É ao mesmo tempo objeto de natureza e sujeito de cultura; indivíduo e grupo; vivida e sonhada; a coisa humana por excelência". (Lévi-Strauss, 1981: 117)
A visita a Goiânia em 1937 e as impressões do empreendimento, em especial da única edificação que então sobressaía na planície, o grande e desgracioso hotel, fornecem-lhe o gancho para a segunda parte do exercício. A bordo de um tapete voador, termo que emprega como intertítulo em Tristes trópicos, Lévi-Strauss deixa o planalto central brasileiro em direção à Índia e ao Paquistão. A comparação agora será numa perspectiva macro, entre unidades maiores, afastadas no tempo e no espaço. A visão das ruínas das antigas cidades de Mohenjo-Daro e Harappa, revelando o plano urbanístico em retícula, evoca similares modernos:
"Apraz-nos imaginar que no termo de 4 a 5 mil anos de história, um ciclo foi concluído; que a civilização urbana, industrial, burguesa, inaugurada pelas cidades dos Indus, não diferia muito, na sua inspiração mais profunda, dessa que estava destinada, após uma longa involução na crisálida européia, a atingir a plenitude do outro lado do Atlântico. Quando ainda era jovem, o mundo mais Antigo esboçava já o rosto do Novo". (Lévi-Strauss, 1981: 124)
Mas é o impacto das multidões que lhe oferece o contraste mais marcante e novas pistas para comparação: nas ruas apinhadas de Calcutá o séquito de serviçais e suas ofertas, a procissão de pedintes e suas súplicas sustentam o ininterrupto e deprimente espetáculo de uma sub–humanidade. A cidade, qualificada poucas linhas acima como "forma mais completa e requintada da civilização", aqui emerge manchada pela imundície e degradação, produzindo no antropólogo não mais o estranhamento esperado e metodologicamente controlado, mas o espanto e até o constrangimento.
"O europeu que vive na América tropical tem problemas. Observa as relações originais existentes entre o homem e o meio geográfico; e as próprias formas de vida humana oferecem-lhe, sem cessar, temas de reflexão. Mas as relações entre as pessoas não revestem formas novas; são da mesma natureza daquelas que sempre o rodearam. Pelo contrário, na Ásia meridional, parece-lhe estar além ou aquém daquilo que o homem tem direito de exigir do mundo ou do homem. A vida cotidiana parece ser um permanente repúdio da noção de relações humanas (:128)."
É desse afastamento mais extremo, contudo, que vai emergir um novo significado e é aí que vai descobrir uma inusitada manifestação de humanidade. A imagem do artesão, entretido com umas poucas ferramentas e escasso material, a exercer na própria rua o ofício de onde retira a parca subsistência para si e para os seus, fá-lo exclamar: "E, todavia, são precisas tão poucas coisas, aqui, para criar a humanidade! Pouco espaço, pouca comida, poucos utensílios, pouca alegria".
Paradoxalmente, parece haver muita alma... Alma que uma parte do Ocidente cansada do consumo e saturada pela abundância vem procurar nas palavras e exemplos de esquálidos bikhus, gurus semi despidos e toda espécie de renunciadores, na recente onda de retorno a formas de espiritualidade há muito esquecidas neste outro lado do mundo.
O exercício finalmente chega a seu termo. Lévi-Strauss considera que o problema levantado pela confrontação entre a Ásia e a América tropicais continua sendo o da multiplicação humana num espaço limitado. Diante da situação de sociedades que se tornam demasiado numerosas, alerta para um tipo de perigo: a sedução de uma saída simplista, aquela que consiste em recusar qualidade humana a uma parte da espécie.
"Aquilo que me assusta na Ásia é a imagem do nosso futuro, do qual ela constitui uma antecipação", conclui, numa sombria antevisão. Sua última imagem, contudo, é da América indígena e seu fugidio reflexo "de uma era em que a espécie se encontrava à medida do seu universo e em que se verificava permanentemente uma relação adequada entre o exercício da liberdade e os sinais desta" (Lévi-Strauss, 1981: 143).
José Guilherme Cantor Magnani
Professor do Departamento de Antropologia – USP
Retirado parte do texto do Blog História Viva
O Autor ( Antropologia )
No último dia 31 de outubro, o mundo perdeu um de seus maiores e mais importantes pensadores contemporâneos, o antropólogo e filósofo Claude Lévi-Strauss. Às vésperas de completar 101 anos, o pensador belga, de ascendência francesa, deixa um legado fundamental para o estudo das sociedades contemporâneas.
Formado inicialmente em Filosofia, o pensador aceitou, em 1934, o convite para lecionar na recém-criada Universidade de São Paulo (USP) motivado pela proximidade de tribos indígenas. Durante a estadia, Lévi-Strauss realizou algumas expedições pela parte central do país e por outras áreas da América do Sul, onde analisou e estudou o comportamento dos chamados “primitivos” e descobriu sua paixão pela Antropologia.
Alguns anos mais tarde, radicado nos Estados Unidos, escreveu um livro-relato sobre as viagens realizadas abaixo da Linha do Equador, “Tristes Trópicos”, em que conta suas experiências com os índios, juntamente com o livre exercício de narração dos fatos que estavam guardados em sua memória.
Ainda na América do Norte, o antropólogo desenvolve uma tese que incorpora elementos da Linguística de Saussure – que passa a estudar a língua como um sistema em que todos os elementos estão interligados – e acaba por desenvolver um de seus trabalhos mais importantes: a antropologia estrutural. Utilizando-se de princípios das ciências, desenvolveu um pensamento objetivo capaz de desvendar elementos universais e atemporais do espírito humano.
Entretanto, o trabalho de Claude Lévi-Strauss não se resume apenas ao Estruturalismo, abrangendo uma linha de pesquisa bastante vasta e de suma importância para os estudos e pesquisas, não apenas da Antropologia, mas das Ciências Humanas.
Por Taysa Coelho, do "Olhar Virtual"
Retirado do Blog Traços do que Vejo de Ana Helena Ribeiro Tavares.
domingo, 1 de novembro de 2009
Relatos
Guardam os povos memória
De grandes feitos vividos;
São os percursos da História,
Que os homens hão percorrido.
.
Quantas histórias de enredos,
Com personagens reais,
Não nos relatam segredos
Feitos paixões imortais?!
.
Sobram relatos de horror,
De violências, batalhas,
De guerras feitas ao calhas.
.
Faltam relatos de amor,
De vidas sãs, alegria,
Vividas em poesia.
VITOR CINTRA
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